E eu sei que não é bem o objetivo desse blog, mas resolvi comentar sobre isso. Achei um artigo agora que fala das diversas intervenções com os adolescentes em conflito com a lei, e uma, em especifico, aconteceu através da capoeira, ainda na epoca da FEBEM. Vou colar o trecho aqui que fala especificamente sobre isso que estou dizendo:
11. Capoeira para adolescentes internos na FEBEM: um estudo sobre a
consciência
A pesquisa de Mello, A.S. (1999) foi realizada na antiga FEBEM, unidade
Tatuapé, com adolescentes autores de ato infracional, com idades entre 12 e 18
anos. Essas unidades eram divididas em alta, média e baixa periculosidade. Os
adolescentes eram separados conforme o grau da infração cometida e faixa
etária. O trabalho foi realizado na Unidade Educacional 16, classificada como
uma de média periculosidade. Os adolescentes dessa unidade eram mantidos
em regime fechado, a liberação ocorria apenas para atividades educativas,
escolas profissionalizantes e aulas de Educação Física.
Foram realizados oito encontros com a proposta de apresentar o que era
a Capoeira a esses jovens e fazê-los entrar em contato com essa prática.
Juntamente com a atividade física, o pesquisador apresentou músicas aos jovens
com temáticas relacionas à capoeira, à escravidão, à afrodescendência e pediu
que eles falassem o que achavam das letras das músicas. Os primeiros encontros
foram marcados pela desorganização do grupo e certa falta de comprometimento
de alguns jovens que saíam para fumar, por exemplo, e só voltavam no final da
atividade. Apesar dessa desorganização, quando os jovens foram questionados
sobre a impressão que tiveram delas, pronunciaram-se e deram respostas
positivas (Mello, A. S., 1999).
Ao longo dos encontros, alguns meninos que não haviam participado das
rodas de capoeira anteriormente interessaram-se e passaram a tomar parte no
grupo, além de fazerem questão de ser avaliados, perguntando ao professor se
os movimentos estavam sendo executados da forma correta. Por volta do terceiro
encontro, já era possível observar um maior respeito entre os garotos, que
esperavam sua vez de falar e respeitavam as dúvidas dos colegas (Mello, A.S.,
1999).
Um importante aspecto confirmado pela pesquisa foi a viabilidade da
utilização da capoeira como instrumento para programas educacionais.
Historicamente, ela se constituiu como movimento de resistência das camadas
populares. Através dela, os “oprimidos” podiam preservar a sua identidade,
considerando o aspecto musical; importantes temas referentes à cidadania são
abordados. Além disso, o fato de, numa pesquisa interna da antiga FEBEM, a
capoeira ter sido escolhida pelos alunos, coloca-a como uma significativa prática
para eles (Mello, A.S., 1999).
Mello, A.S. (1999) notou em muitos dos seus alunos que apresentavam
traços físicos de afrodescendência, mas não se viam como tal, havia uma
negação em suas falas dessa herança africana. O negro, para eles, era sempre
o outro. Também consideravam como aspectos importantes na fala dos alunos
o uso da palavra “senhor” e de expressões “polícias”, como “Só isso que eu
tenho pra falar” ou “Não tenho mais nada pra dizer”. Essas falas demonstram a
submissão e a opressão que esses jovens estavam vivenciando, como o medo
deles de se pronunciarem, de emitirem suas opiniões. Com o passar do tempo,
houve uma redução da palavra “senhor” e das expressões “policiais”, o que
demonstrou um desenvolvimento da confiança dos alunos em relação ao
professor/pesquisador. O respeito e a sinceridade, construídos através dos
diálogos, foram os responsáveis pela confiança adquirida. A opressão sofrida
pelos jovens leva ao medo e à submissão. Dessa forma, os adolescentes não
emitem suas opiniões, ficam privados do diálogo, fator imprescindível para o
desenvolvimento da consciência.
A partir da pesquisa de Mello, A.S. (1999), foi possível observar como a
prática de um esporte vinculada a outras atividades pode trazer à tona diversos
fatores ligados à vida dos alunos. Através de discussões de músicas, eles
emitiram suas opiniões e, paulatinamente, desenvolveram uma confiança para
com o professor, relatando, a este, experiências vividas, problemas do cotidiano
e opiniões sobre temas como racismo, preconceito e escola. A pesquisa trouxe
muitos esclarecimentos a respeito da vida desses jovens."
É isso.
A referência do texto, pra quem tiver interesse:
Conselheiro Sequeira, Vânia; Carneiro Pinheiro, Amanda; Mischiatti Soares, Ana Carolina. (2010). Um estudo exploratório sobre experiências significativas no atendimento ao jovem em conflito com a lei e sua família. Boletim Academia Paulista de Psicologia, Julio-Diciembre, 346-362
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